CIVILIZAÇÃO EGÍPCIA: Evolução Histórica (III)

O NOVO IMPÉRIO (1580-1080 a.C.)

O faraó Amósis I foi responsável pela expulsão definitiva dos invasores hicsos, povo que dominou por cerca de dois séculos o delta e a região norte do Egito. Com Amósis foi inaugurada a XVIII dinastia e teve início o chamado Novo Império, período que se estendeu até a XX dinastia e correspondeu à fase de apogeu da civilização egípcia. Esse foi o momento de maior esplendor da civilização do Nilo e, também, a etapa da sua história em que se intensificaram os contatos com outros povos e culturas.

Nesse período, o Estado egípcio assumiu um caráter essencialmente militarista e burocrático. A antiga postura pacifista e isolacionista cedeu lugar a uma política nacionalista e expansionista, que marcou toda essa fase. O imperialismo e o belicismo egípcios entraram em choque com os impérios vizinhos daquela época e conduziram a um lento, mas constante, esgotamento dos recursos econômicos e humanos do país. Como resultado, não será capaz de resistir a uma nova onda de invasões ao final desse período. Destacaram-se, nessa fase da história da civilização egípcia, os faraós: Tutmés III, Amenófis IV e Ramsés II.

Tutmés III – Costuma ser citado como o verdadeiro fundador do Novo Império. Durante seu governo, ele empreendeu quase vinte campanhas militares que anexaram a Núbia, a Etiópia, a Palestina, a Síria e a Fenícia. Estendeu, com suas conquistas, as fronteiras do Império da quarta catarata do Nilo até o Eufrates. As façanhas desse grande faraó guerreiro foram imortalizadas nos baixos-relevos esculpidos nas paredes do templo dedicado a Amon, em Carnac.

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Amenófis IV – é um dos faraós mais conhecidos e o mais controverso da história do Egito. Seu casamento com Nefertiti, uma princesa de origem mitani, indica a preocupação do Império em articular alianças com os reinos e impérios vizinhos, com os quais começava a ter conflitos ou interesses comuns. Aquenaton, como passou a se chamar, é célebre por ter realizado uma reforma religiosa de caráter monoteísta, substituindo o tradicional politeísmo do povo egípcio pelo culto ao deus Aton, representado pelo disco solar. Por isso, também mandou construir uma nova cidade – Aquetaton – para onde transferiu a capital do Império. A reforma atoniana, além dos seus aspectos de cunho exclusivamente religioso, tinha também um caráter marcantemente político. Significava, por um lado, uma tentativa de afirmar a supremacia da autoridade do faraó, que sempre foi rivalizada pelo poder, riqueza e influência dos sacerdotes tebanos; por outro lado, representava um esforço no sentido de criar uma religião de caráter universalista para justificar o domínio sobre os povos que haviam sido subjugados pelos egípcios. A nova religião buscava por meio do culto ao Sol, que era uma divindade comum a todos os povos do Oriente Médio, integrar os povos conquistados, legitimando sua dominação. Após a morte de Aquenaton, que foi sucedido por Tutankamon, o clero tebano promoveu uma reação que culminou com a proibição do culto a Aton, e restabeleceu a preponderância de Amon.

 Ramsés II – Foi o último dos grandes faraós do Novo Império. Retomou a política expansionista do tempo de Tutmés III e acabou entrando em choque com o Império dos hititas, povo da Ásia Menor. Em 1278 a.C. a guerra chegou ao fim com a assinatura de um tratado de paz, citado como o primeiro de que se tem notícia, que estabelecia uma fronteira comum e um condomínio dos dois impérios na região. Depois do reinado de Ramsés, o Egito foi, gradualmente, perdendo seus domínios na região.

   Com a XX dinastia começou um novo período de decadência da civilização egípcia. O Novo Império terminava exaurido e esgotado economicamente pelas longas campanhas militares. Enfraquecido, o Império passou a ser atacado por sucessivas levas invasoras por parte dos “povos do mar” e também dos líbios, núbios e etíopes. Cada vez mais debilitado, o Egito foi finalmente conquistado pelos assírios em 662 a.C. Essa fase final é denominada Baixo Império.

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O RENASCIMENTO SAÍTA E O FIM

O Egito viveu um último momento de autonomia e desenvolvimento a partir da XXVI dinastia. Psamético I, seu fundador, expulsou os assírios e instalou a capital na cidade de Saís. Nesse período, também conhecido como Baixo Império, a civilização egípcia recuperou, momentaneamente, seu antigo brilho e esplendor. A obra restauradora iniciada por Psamético teve prosseguimento com seu sucessor, o faraó Necau, que mandou construir o canal que ligava o Nilo ao Mar Vermelho. Nessa época, os egípcios tiveram contato intenso com os gregos que, além do comércio, muitas vezes lutaram como mercenários a serviço dos faraós.

Em 525 a.C., no reinado de Psamético III, os egípcios foram derrotados por Cambises, o imperador dos persas, na Batalha de Pelusa. Depois do domínio persa, o Egito foi incorporado pelos gregos e macedônios, em333 a.C. Depois da morte de Alexandre, tornou-se um reino helenístico herdado por um dos seus generais. A dinastia ptolomaica governou até a época de Cleópatra, quando o Egito passou para o domínio romano. A região ficou sob controle bizantino depois da queda de Roma e, no início da Idade Média, o país foi islamizado pelos árabes. Em 1517, o Egito foi transformado numa província do Império Turco-Otomano.

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CIVILIZAÇÃO EGÍPCIA: Evolução Histórica (II)

O ANTIGO IMPÉRIO (3.200-2.300 a.C.)

No governo da I e II dinastias, a capital foi Tínis, situada mais ao sul. Buscando integrar melhor a administração das regiões do delta e do vale, a III dinastia transferiu a capital para Mênfis, situada mais ao norte e durante os governos da IV e V dinastias o Antigo Império atingiu seu momento de apogeu. Nessa fase, o império egípcio é essencialmente pacifista e o Estado está voltado para as obras de drenagem e irrigação. Foi nesse período de paz e prosperidade que os faraós da IV dinastia – Qéops, Quefrem e Miquerinos – construíram as pirâmides de Gizé, nas proximidades de Mênfis.

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A partir da VI dinastia teve início uma lenta decadência do Antigo Império. Durante vários séculos, a nobreza e o clero, que eram os setores dominantes da sociedade, receberam do poder imperial terras, cargos administrativos, isenção de impostos e outros privilégios. Foram aumentando assim, gradativamente, seu poder e suas prerrogativas, ganhando cada vez mais autonomia. Disso resultou, naturalmente, um lento enfraquecimento da autoridade dos faraós e uma tendência à descentralização política, com o aumento do poder dos nomarcas e dos sacerdotes representantes das divindades de cada região.

Seguiu-se um período de feudalização e anarquia, marcada também por revoltas camponesas. O enfraquecimento do poder central, provavelmente, limitou bastante as grandes obras de irrigação e a organização econômica em nível estatal, que permitia armazenar excedentes para épocas de escassez. Além disso, deve ter debilitado também a capacidade de defesa, pois essa crise culminou com a invasão do Egito por tribos vindas da Núbia e da Ásia. Essa fase de decadência estende-se até a X dinastia e é chamada de Primeiro Período Intermediário. O império fragmentou-se em quatro regiões, com centros decisórios no Delta, em Mênfis, em Heracleópolis e em Tebas, respectivamente.

 

 

CIVILIZAÇÃO EGÍPCIA: Evolução Histórica (I)

A evolução histórica da civilização egípcia não se processou de forma linear. Pelo contrário, os três milênios que se desenrolam desde o início da centralização política até a dominação persa, em 525a.C., foram marcados por uma descontinuidade estrutural, em que se alternam períodos de paz, grandes realizações e prosperidade, com fases de invasões, anarquia, crise e decadência.

No plano interno, períodos de estabilidade, centralização e desenvolvimento alternam-se com fases de regressão feudal, descentralização política, instabilidade, crise ou estagnação econômica e cultural. O isolamento que marcou o primeiro milênio da sua história foi substituído, depois, por contatos cada vez mais intensos com outras civilizações. Externamente, o Egito foi constantemente pressionado por povos nômades pastoris, especialmente na fase inicial da sua história. Mais tarde, foi atacado por povos belicosos, como os hicsos, ou pelos impérios que se sucederam na região Mesopotâmica.

O militarismo do império egípcio era inicialmente voltado para a autodefesa e obtenção de materiais ou escravos nas regiões mais ao sul. Depois que absorveu dos hicsos suas técnicas militares, o Egito desenvolveu uma tendência expansionista e conquistadora  que se voltou em direção às regiões da Palestina, Fenícia e Mesopotâmia. Passou a sofrer, em contrapartida, a pressão dos povos guerreiros dos desertos e planaltos próximos ao seu império.

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O PERÍODO PRÉ-DINÁSTICO

Essa fase caracterizou-se pela inexistência do Estado e, portanto, de um governo centralizado. As populações que foram, gradativamente, se fixando às margens do Nilo acabaram se agrupando em unidades políticas locais, os nomos, que cultuavam a figura de um totem e eram chefiados por um nomarca. A partir do V milênio a.C. teve início um lento processo de centralização do poder que culminou, por volta de 3.500 a.C. na formação dos reinos. O reino do Alto Egito, situado ao Sul, tinha sua capital em Hieracômpolis e o reino do Baixo Egito localizado ao norte, na região do delta, tinha capital em Buto.

Em 3.200 a.C., Menés unificou os reinos do norte e do sul, fundindo as duas coroas e transformando-se no primeiro faraó do Egito unificado. Tinha início, assim, a I dinastia e o chamado Antigo Império. A formação de um poderoso Estado com um governo e uma administração centralizados resultou da necessidade de integrar e coordenar as forças necessárias para a execução de obras públicas como barragens, diques e canais de irrigação. O excedente econômico, que era gerado pelo desenvolvimento dessa agricultura de regadio, por sua vez, acentuava a divisão e a especialização do trabalho e fortalecia ainda mais o poder do Estado.

 

A CIVILIZAÇÃO EGÍPCIA: Literatura, Arte, Ciência

A ESCRITA E A LITERATURA

A escrita hieroglífica, inventada pelos egípcios ainda no período pré-dinástico, foi, inicialmente, privilégio e monopólio dos sacerdotes e escribas. Era uma escrita do tipo ideográfico, isto é, os sinais transmitem idéias. A utilização de tinta e papiro levou ao surgimento, mais tarde, de dois sistemas de escrita mais simplificados: a hierática (sagrada) usada pela casta dos sacerdotes, e a demótica, escrita de uso mais comum. A escrita hieroglífica foi decifrada pelo francês Champollion, usando a famosa “pedra de Roseta” encontrada durante uma expedição de Napoleão ao Egito, em 1799.

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Os egípcios produziram uma literatura abundante e variada, que incluía hinos, cantos, poesias, escritos de cunho moral e religioso, mas muito pouca coisa chegou até nossos dias. Entre as obras que possuem um caráter filosófico destacam-se os escritos de Ptahhotep e Amenomope. Na literatura religiosa nos chegou o Drama Menfítico, O Livro dos Mortos e, também, o Hino do Deus Sol, que foi escrito pelo faraó Aquenaton, quando este tentou implantar o monoteísmo no Egito.

 

AS ARTES

Por ter se desenvolvido sempre sob a tutela e a orientação do Estado, arte egípcia foi marcada pelo convencionalismo e pelo formalismo. O senso de criação e a originalidade sempre foram tolhidos pela dependência e submissão às exigências religiosas ou cortesãs. De maneira geral, a arte no Egito se caracterizou, então, pelo seu conteúdo tradicional e pela sua forma conservadora. Dirigida por um conjunto de regras, cânones e fórmulas fixas a arte tinha por objetivo a exaltação dos deuses e dos faraós.

A arquitetura foi a arte dominante, pois a pintura e escultura eram totalmente submetidas a ela. Foi caracterizada pela sua grandiosidade e pela preocupação em exaltar o poderio do Estado. Nela se destacam as pirâmides (túmulos dos faraós) construídas no Antigo Império, no vale do Gizé, e os templos erguidos no Novo Império. Os mais importantes, por sua grandiosidade e beleza são os templos de Luxor e Carnac. Também são dignos de destaque as mastabas (túmulos da nobreza) e os hipogeus, que são necrópoles subterrâneas ou cavadas na rocha, que ficam localizadas no Vale dos Reis.

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A pintura e a escultura nunca alcançaram a condição de artes independentes, com autonomia de criação. Estiveram sempre subordinadas aos imperativos da arquitetura, arte por excelência, no Egito Antigo. Na escultura são famosas as estátuas dos faraós do Novo Império como, por exemplo, a gigantesca estátua de Ramsés II na entrada do templo de Abu-Simbel. A pintura egípcia, por sua vez, desconhecia totalmente as leis da perspectiva. Inconfundível, ela retrata o corpo humano de uma forma convencional: os olhos, ombros e tronco de frente; rosto e membros de perfil.

 

AS CIÊNCIAS

As ciências que se desenvolveram no Egito Antigo tinham sempre um caráter prático e utilitário, isto é, resultaram de necessidades objetivas geradas pelo esforço humano para dominar a natureza e reproduzir sua existência. Não eram, então, ciências abstratas e de cunho especulativo, mas sim conhecimentos que podiam ser aplicados na solução de problemas concretos como prever as cheias do rio, demarcar terras, construir sistemas de irrigação, edificar templos etc. Nesse sentido, as ciências que os egípcios mais desenvolveram foram a astronomia, a matemática e a medicina.

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A astronomia nasceu da astrologia e foi desenvolvida pelos sacerdotes como decorrência da necessidade de prever as inundações do Nilo. Os egípcios criaram um calendário solar, dividindo o ano em 365 dias e os dias em 24 horas. Na matemática, desenvolveram, principalmente, a aritmética e a geometria. Esta, em especial, atingiu grande avanço, que pode ser comprovado na perfeição que marca a construção de pirâmides e templos. A medicina também foi muito avançada, devido ao estudo do corpo humano, que foi estimulado pelos processos de mumificação.

A CIVILIZAÇÃO EGÍPCIA: Religião e Poder

Predominou, no Egito Antigo, o que se convencionou chamar de “despotismo teocrático”, isto é, um poder político fortemente centralizado na figura de um governante visto como um deus ou seu representante entre os homens. Apesar de uma longa história, que se desenrola por quase três mil anos, o Estado egípcio nunca passou por uma mudança substancial na sua estrutura: foi sempre uma organização estatal essencialmente teocrática, imperialista e burocrática. Inicialmente pacifista e voltado para a defesa interna, o Estado egípcio adquiriu, a partir do Novo Império, também um caráter militarista e expansionista.

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O todo-poderoso Estado teocrático egípcio, que dirigia a economia e controlava a sociedade, estava intimamente ligado ao clero e às crenças religiosas. Era uma estrutura de poder em que política e religião estavam fortemente entrelaçadas. A religião fornecia as bases ideológicas para explicar e justificar o poder político. O faraó, governante absoluto, era cultuado e adorado como um deus vivo e personificava o Estado e o seu poder. Era considerado o “senhor de todos os homens e o dono de todas as terras” e exercia as funções de comandante militar, supremo juiz e sumo sacerdote.

A religião no Egito Antigo era politeísta e evoluiu de deuses locais ou totêmicos até a sua fusão em deuses nacionais.  Essa evolução reflete a evolução política, que vai do particularismo dos nomos ao poder centralizado do Estado imperial. A partir daí, a religião desempenhou um papel bem definido: o de instrumento ideológico de dominação e reprodução da ordem social existente. Em outras palavras, foi um instrumento de controle social destinado a manter e perpetuar as relações de dominação de uma classe sobre o resto da sociedade.

Na religião egípcia existiam forças cósmicas ou naturais que foram deificadas, como o Sol e o Nilo, que eram essenciais à vida do Egito. Também existiam deuses representados sob a forma animal (zoomorfismo), como no caso do boi Ápis, ou corpo humano e cabeça animal (antropozoomorfismo), como era o caso de Anúbis, o deus da mumificação. Posteriormente, surgiram divindades, como Osíris e Íris, que assumiram a forma humana (antropomorfismo). Essas últimas, divindades agrárias, foram as mais populares entre os egípcios. Acreditavam que as cheias do Nilo eram produzidas pelas lágrimas de Ísis. Ela chorava pela morte de Osíris, assassinado por Set.

A tendência a uma religião solar, porém, esteve presente em todas as fases da história do Egito. No Antigo Império, Rá (o Sol), o deus de Heliópolis, se impôs como divindade nacional acima dos deuses locais. No Médio Império, a supremacia de Tebas levou à fusão do seu deus (Amon) com o antigo deus-sol, surgindo o culto a Amon-Rá. Foi também nessa época que o princípio da imortalidade da alma, antes privilégio da família real e dos faraós, foi estendido a todo o povo. A crença na vida pós-morte se arraigou de tal modo na mentalidade egípcia, que técnicas sofisticadas de embalsamamento foram desenvolvidas. A qualidade do processo de mumificação dependia, entretanto, da posição social do indivíduo.

A CIVILIZAÇÃO EGÍPCIA: Economia e Sociedade

O MEIO GEOGRÁFICO

As civilizações da Antiguidade Oriental desenvolveram-se na região do Oriente Próximo, que foi denominada pelos historiadores como o “crescente fértil”. Esta faixa de terra se estende do nordeste da África, passando pela larga área entre o Mediterrâneo oriental e o norte da Península Arábica, até a região que termina no Golfo Pérsico. Ali surgiram e evoluíram, a partir de 3.200 a.C., diversas civilizações como a egípcia, as mesopotâmicas, a fenícia, a hebraica, e a persa, além de outras culturas menores.

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A civilização egípcia floresceu nas terras que acompanham o curso do Rio Nilo no nordeste da África, até desembocar no Mar Mediterrâneo. Numa estreita faixa de terreno, com no máximo 15 km de largura, foram se fixando populações empurradas pelas mudanças climáticas ocorridas depois da última era glacial, que desertificaram as regiões vizinhas. Essas populações, consideradas autóctones, fundiram-se mais tarde com grupos de origem semita e núbia. Na fase de apogeu da civilização egípcia, estima-se que mais de 15 milhões de pessoas, entre camponeses e uma considerável população urbana, vivessem nesse verdadeiro oásis cercado pelos desertos da Líbia e da Arábia.

“O Egito é uma dádiva do Nilo” afirmou o grego Heródoto, considerado o pai da História. O rio Nilo nasce no Lago Vitória e percorre mais de 6.000 km até chegar ao delta. Suas cheias anuais, provocadas pelas chuvas e pelo derretimento da neve das montanhas, começam em junho e se estendem até novembro. Quando começa a vazante, tem início a semeadura da terra que foi fertilizada pelo lodo depositado nas suas margens. Entretanto, é preciso relativizar o determinismo geográfico presente na famosa frase de Heródoto, lembrando o enorme esforço humano que permitiu controlar o rio e as forças da natureza para que ali florescesse aquela brilhante civilização.

A ECONOMIA

A civilização egípcia estava organizada nos moldes do modo de produção asiático. Isso significa que a economia se caracterizava pelo intervencionismo estatal e pelo dirigismo econômico. O Estado, proprietário das terras e dos meios de produção, organizava as grandes obras de irrigação e se apropriava do excedente produzido pelas comunidades camponesas através de tributos pagos com produtos ou com trabalho. A produção artesanal especializada e o comércio exterior eram, também, controlados pelo poder estatal.

Os egípcios cultivavam o trigo, a cevada, o algodão, a lentilha e a uva, entre outros produtos. Árvores frutíferas e hortaliças também eram abundantes. Além disso, desenvolviam intensa atividade pastoril criando rebanhos bovinos, caprinos, suínos e ovinos. A caça e a pesca completavam as fontes alimentares dos egípcios. O comércio desenvolveu-se especialmente no Novo Império e era realizado através dos fenícios, cretenses e sírios. O Egito exportava principalmente trigo, tecidos, cerâmica, vinho e óleos vegetais e importava produtos como madeira, pedras e metais preciosos, marfim, perfumes, etc. Destacavam-se ainda as manufaturas de vidro, de cerâmica e a indústria da construção naval.

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A SOCIEDADE

No Egito da Antiguidade, desenvolveu-se uma sociedade de castas, imobilista e estratificada. Nela, de maneira geral, todos os cargos, funções, ofícios e profissões eram transmitidos por hereditariedade. Era também uma sociedade rigidamente hierarquizada e que se estruturava de forma piramidal, tendo no seu topo a casta sacerdotal, a aristocracia guerreira e os funcionários e escribas a serviço do Estado. Esses segmentos da sociedade formavam a elite dirigente e monopolizavam, respectivamente, todas as funções religiosas, militares e administrativas.

A casta sacerdotal e a nobreza guerreira davam sustentação ao poder faraônico e controlavam o aparelho de Estado, apropriando-se, através dele, do excedente econômico produzido pela população que trabalhava nos campos e nas cidades. Era uma imensa massa, formada por camponeses e artífices que estavam submetidos à servidão coletiva. Essa enorme população constituía a base da pirâmide social e vivia em condições, normalmente, bastante precárias. Os escravos, obtidos nas guerras, no comércio ou como tributo que era pago por populações subjugadas podiam representar uma parcela maior ou menor da população, dependendo da época. Viviam em condições variadas, dependendo da sua ocupação.

 

 

A CIVILIZAÇÃO ASTECA

Os astecas eram tribos nômades de caçadores guerreiros, que ignoravam a agricultura e a tecelagem, quando chegaram ao vale do México, por volta do século XII. Quando da chegada dos espanhóis na América, os astecas já haviam submetido todas as civilizações da Mesoamérica, as quais lhes pagavam um tributo anual. O império asteca poderia ser caracterizado como um império teocrático de regadio, pois como as antigas civilizações da Mesopotâmia, do Egito, da China e da Índia, estava baseado numa agricultura irrigada intensiva, servida por gigantescos sistemas de canais, controlados pelo Estado, que permitia imensas concentrações humanas. Tenochtitlán, sua capital, abrigava uma população de um milhão de pessoas. A sociedade asteca era fortemente estratificada. A camada social superior era a nobreza, formada pelos guerreiros e sacerdotes. Uma camada intermediária era composta por comerciantes e artesãos, que produziam objetos de consumo para a nobreza. Logo abaixo, existia a grande massa dos camponeses.

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A civilização maia floresceu na parte da América Central que corresponde atualmente à Guatemala. Embora sendo também um império teocrático de regadio, não tinha o nível urbano das civilizações asteca e inca. Existem indícios de que, na época da chegada dos espanhóis, os maias já se encontravam em um processo de decadência, o que teria facilitado sua conquista e dominação pelos europeus. Sua civilização, que teria vivido sua fase de apogeu entre os séculos III e X, desenvolveu um rico patrimônio cultural, assimilando traços de outras culturas com as quais entro em contato, por sua posição privilegiada. Talvez tenha sido a primeira civilização a se desenvolver numa região tropical. Além da sua arquitetura grandiosa, com pirâmides em degraus, os mais produziram conhecimentos na Matemática e na Astronomia. Elaboraram, ainda, o único sistema de escrita da América pré-colombiana. Sua religião, politeísta, realizava sacrifícios humanos. Conflitos entre as cidades-Estado, como Copán e Palenke, e mudanças ambientais estariam na origem da decadência da civilização maia.

A CIVILIZAÇÃO HINDU

No início do III milênio a.C., os dravidianos, povo primitivo que habitava o norte da Índia, já cultivavam uma espécie de arroz domesticado às margens do rio Indo. Por volta de 2.000 a.C., florescia na região uma civilização bem adiantada, cujos principais centros eram Mohenjo-Daro e Harappa. A partir do século XVI a.C., povos arianos, vindos do norte, de pele mais clara que os nativos, invadiram a Índia, em levas sucessivas, e subjugaram as populações locais. Eram bons guerreiros, que usavam cavalos e utilizavam armas de ferro. Do confronto, mas também do amalgamento, de elementos das duas culturas (dravidiana e ariana) surgiu, nos séculos posteriores, a brilhante Civilização Hindu. Sua história, relatada entre lendas e mitos, está registrada nas diversas variedades do sânscrito, a língua dos hindus. Dois grandes livros contêm essas narrativas: o Mahabharata e o Ramayana. Os principados e reinos que se formaram, a partir dessa época, travaram uma longa luta entre si até o século III a.C., quando foram unificados pelo rei Asoka.

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Além da agricultura irrigada, principalmente ao longo do rio Indo e do rio Ganges, os hindus criavam rebanhos de diversos animais, embora existissem restrições ao consumo de alguns deles por serem considerados sagrados ou impuros. Tanto o comércio quanto o artesanato especializado tiveram enorme desenvolvimento na Índia da Antiguidade. Além de armas e ferramentas, produziam jóias, tecidos, incenso e outros artigos de luxo que eram exportados através das caravanas que ligavam o norte da Índia com a China e as regiões do Oriente Médio. A sociedade hindu era rigidamente estratificada e as castas e suas subdivisões eram rigorosamente separadas. Elas possuíam sinais de distinção que não permitiam qualquer possibilidade de mudança social. De acordo com os textos sagrados do vedismo, religião hindu primitiva, cada indivíduo nasce predestinado a pertencer a uma das seguintes castas:

  • Brâmanes, sacerdotes cujos ancestrais teriam nascido da boca do deus Brama.
  • Xátrias, guerreiros que, acreditava-se, teriam saído dos braços de Brama.
  • Vaicias, camponeses, artesãos e mercadores que seriam oriundos das pernas da divindade.
  • Sudras, servos e etnias dominadas que eram utilizados no trabalho mais degradante, descendiam dos pés de Brama.
  • Párias, fora de qualquer classe e privados de qualquer direito, inclusive religioso, eram impuros e intocáveis.

História e Sociedade

A cultura hinduísta, de caráter conservador e tradicionalista, foi profundamente marcada pelo misticismo e pela religião. O período védico, com sua pureza primitiva, cedeu lugar, depois, ao politeísmo do período bramânico. O dogma principal do bramanismo é conformista, pois se refere à transmigração da alma, que passaria por sucessivas purificações de acordo com a conduta neste mundo. Além dos rituais e longas meditações, o culto exige, como primeira obrigação moral, o amor a todos os seres vivos. Por volta do século VI a.C., ocorreu uma mudança radical com o início do período búdico. O budismo representou uma forte reação contra a teocracia dos brâmanes que, inicialmente, reprimiram os seus seguidores. Sidarta Gautama, um príncipe que se transformou em monge, passou a pregar aos hindus o desprendimento das coisas materiais, a caridade e a prática da meditação. Buda, o Iluminado, prometia, como recompensa, a paz espiritual no Nirvana. O budismo defendia a igualdade de todos os homens e condenava as castas. A nova religião difundiu-se para o Tibet, a China, a Indochina e o Japão.

A CIVILIZAÇÃO CHINESA

Na China, surgiu uma das mais antigas civilizações do planeta. Registros arqueológicos evidenciam que comunidades aldeãs de agricultores e artesãos já habitavam o vale do rio Amarelo desde o IV milênio a.C. Cultivavam plantas como o milho e o arroz e criavam animais como porcos e cabras. No II milênio a.C. essas populações já tinham desenvolvido a metalurgia do bronze, com o qual fundiam armas, ferramentas e utensílios. A necessidade de construir diques, canais e outras obras para irrigação, que exigiam o trabalho de muitas pessoas, levou as comunidades a se organizarem em torno de uma autoridade política que foi se tornando cada vez mais centralizada.

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A primeira dinastia governante, com sua existência histórica comprovada por achados arqueológicos, foi da família Chang. Essa dinastia governou o núcleo inicial da civilização chinesa, ao longo do rio Amarelo, o Huang-ho, entre 1500-1000 a.C., aproximadamente. Os governantes da família Chang foram, posteriormente, derrotados por guerreiros da dinastia Tcheu. Essa dinastia, depois de várias campanhas militares vitoriosas, estendeu os domínios chineses até o vale do Rio Azul, o Yang-tse. Foram dessa linhagem os soberanos que governaram a China até o século III a.C. As constantes disputas entre as principais famílias da nobreza guerreira, entretanto, dividiram e enfraqueceram gradativamente o país, que se tornou cada vez mais vulnerável às invasões dos mongóis, vindos do norte.

Em 221 a.C. o soberano de Quin (ou Tsin), Che Huang-Ti, derrotou outros grandes senhores e proclamou-se imperador de toda a China. O novo soberano centralizou fortemente o poder e unificou o sistema de escrita utilizado pelos chineses, reduzindo a força do particularismo representado nos vários dialetos que eram falados nas diversas regiões do território chinês. Padronizou, também, o sistema de pesos e medidas e abriu estradas, o que impulsionou o crescimento do comércio. Foi adotado um eficiente sistema de arrecadação de impostos, o que permitiu ao imperador obter recursos para manter um exército profissional permanente e sustentar uma numerosa burocracia estatal. Para proteger as fronteiras ao norte, contra a ameaça das incursões dos mongóis, Che Huang-Ti mandou construir a Grande Muralha, entre 215-210 a.C.

As reformas empreendidas pela dinastia Quin marcaram de tal modo a história do país que a palavra China é uma variante do termo Quin. Começava, nesta época, uma das fases de maior esplendor da civilização chinesa, que coincide com o governo da dinastia Han (206 a.C.-221 d.C). Os imperadores desta dinastia conquistaram novos territórios e ampliaram o comércio com outros povos. As mercadorias chinesas, como a seda, cruzavam a Ásia e chegavam até o Império Romano pelo Mar Mediterrâneo. Caravanas chegavam até a Mesopotâmia e a Fenícia. Nessa época, o contato com a Índia trouxe para a China a influência do budismo e datam desse período, também, importantes invenções como a do papel. Com o fim da dinastia Han teve início uma fase de declínio marcada por rebeliões camponesas, lutas entre os grandes senhores e novas invasões. Um novo período de brilho e esplendor teria início no século VII sob o governo da dinastia Tang.

Dinastía_Han_occidental

Os imperadores eram considerados Filhos do Céu e possuíam um “mandato celestial” para governar. Os chineses chamavam sua terra de Império do Meio, pois a consideravam o centro do mundo. Os domínios chineses eram, nessa época, tão vastos quanto os do grandioso Império Romano. Na prática, porém, a autoridade política era exercida pelos ministros e pelos altos funcionários letrados, cujo poder era maior que o dos próprios imperadores. Os administradores, chamados de mandarins, organizavam as obras e o trabalho da população. Estabeleciam os preços, coletavam os impostos e fixavam o calendário das atividades produtivas e das festividades. Legislavam, redigiam tratados e acordos comerciais, nomeavam funcionários e eram responsáveis pela justiça. Logo depois, na escala social, vinham militares, comerciantes e monges. Na base da pirâmide social estava a massa de camponeses e artesãos pobres das cidades, que viviam em condições bastante precárias.

A cultura chinesa foi profundamente influenciada por duas correntes de pensamento: o taoísmo e o confucionismo. Tao significa caminho em chinês, de onde deriva o termo taoísmo para os ensinamentos de caráter filosófico-religioso de Lao-Tsé. O sábio condenava as desigualdades entre ricos e pobres e afirmava que o desejo de possuir bens materiais afastava o indivíduo do caminho da harmonia consigo mesmo e com os outros. Para ele, a harmonia se encontraria no equilíbrio entre os princípios opostos que se complementam: o yin (elemento feminino passivo, representado pela lua e pelo céu) e o yang (energia masculina ativa, simbolizada pelo sol). Confúcio, que viveu entre 551-479 a.C., foi um mandarim que criou uma doutrina moral segundo a qual a sabedoria se obtém seguindo a experiência e os ensinamentos dos antepassados e dos bons governantes. O confucionismo influenciou bastante o governo da dinastia Han juntamente com os seguidores do legismo, ou Escola das Leis, segundo os quais a guerra e a disciplina eram as principais formas de fortalecer o poder imperial.

A CIVILIZAÇÃO INCA

Os incas, estabelecidos inicialmente no Altiplano Andino, se deslocaram para a região de Cuzco, no século XII. À época da chegada dos espanhóis, 220px-Inca-expansionseu domínio estendia-se pelos atuais Peru, Bolívia e Equador. No império inca teriam vivido mais de 10 milhões de indivíduos. Da mesma forma que as civilizações asteca e maia, os incas constituíram um império teocrático de regadio, onde o poder político e religioso estava concentrado nas mãos do Inca, imperador sagrado. O Estado, representado pelo Inca, organizava os grandes canais de irrigação, utilizados na agricultura intensiva. De todas as civilizações pré-coloniais, foi a que apresentou o sistema político, social e religioso mais estruturado e coerente. A fortaleza dos incas abrigava uma comunidade capaz, graças às suas culturas em terraço, de viver sem contato com o exterior. Nas ruínas de Machu-Picchu foi identificado o palácio da aristocracia e localizados os bairros dos artesão e do povo, o que prova a existência da divisão em castas sociais rigidamente estruturadas.

A casta dominante era a nobreza hereditária formada pelas velhas linhagens incas e pelos chefes dos povos dominados. A função desta casta era exercer os papeis sociais de sacerdotes, altos funcionários administrativos e chefes guerreiros. Numa posição hierárquica inferior vinha a baixa nobreza, cuja função não era hereditária, formada de militares, sacerdotes menores, burocratas do Estado e chefes de aldeias (os curacas). Abaixo desta, estava situada uma casta composta de trabalhadores urbanos (artesãos, médicos, comerciantes e funcionários) e, por fim, os camponeses, que vivam nos Ayllus, comunidades aldeãs locais, que tinham por base o grupo de parentesco. As terras dos ayllus pertenciam, nominalmente, ao Inca (Estado) mas eram utilizadas pelas comunidades. Elas eram divididas em três partes: a do Inca, a da Igreja e a do ayllu.

Emissaries Bring Tribute To Inca (Ned M. Seidler)

   As terras do Estado eram cultivadas pelos camponeses, em regime de trabalho compulsório. A produção dessa terra visava alimentar a nobreza, os trabalhadores urbanos, o exército e os que não tivessem condições de subsistência. As terras da Igreja sustentavam o clero e as terras dos ayllus, os camponeses. O Estado inca era altamente centralizado e sua função era captar o excedente econômico e organizar a construção das grandes obras públicas, como estradas e canais de irrigação necessários à agricultura de regadio. Além da tecelagem e da cerâmica, o império inca havia desenvolvido a arquitetura e escultura em pedra, mas ignorava a escrita e a roda. Assim, continua sendo um mistério a construção, com blocos de pedra bem talhados, da cidade de Machu-Picchu, a mais de 2.000m de altura.